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Há 30 anos, a queda do Muro de Berlim mudava a história do mundo

A barreira de concreto foi ao chão contrariando os interesses do Regime Comunista da Alemanha Oriental e surpreendeu até os líderes capitalistas do lado Ocidental

POR MICKAEL BARBIERI (mickael.barbieri@cbn.com.br)

Em 1952, os pais do professor de alemão da UFMG, Georg Otte, decidiram que era hora de fazer as malas e partir da então Alemanha Oriental. Eles sentiam que não poderiam prosperar sob o regime comunista.

Partes do Muro de Berlim ainda estão de pé e viraram museu a céu aberto. Foto: Pixabay

“A minha mãe, como filha de um ‘capitalista’ dono de uma pequena fábrica de queijos, queria estudar medicina, mas não deixaram porque privilegiavam filhos de camponeses e de operários. Além disso, o governo [comunista] começou a medir as propriedades para uma posterior coletivização e o meu pai, filho de um fazendeiro com propriedade relativamente grande, ia ser desapropriado. Aí, a família toda resolveu fugir da noite para o dia”, contou o professor.

Eles saíram da cidade de Wittenberg e foram se instalar em uma região na fronteira com Luxemburgo, na antiga Alemanha Ocidental, ocupada pelos capitalistas. A capital Berlim, apesar de ficar na zona dedicada à União Soviética, passou pelo mesmo processo de divisão do país e se tornou um dos óbvios pontos de imigração.

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Assim como os pais de Georg, três milhões de pessoas tiveram a mesma ideia de passar do lado socialista para o capitalista. A maioria jovens. Vendo que estava perdendo poder e mão de obra para o estado vizinho, o governo comunista resolveu, então, fechar as fronteiras. Foi assim, em 1961, que começou a ser construído o Muro de Berlim.

“Claro isso não era a explicação oficial do Regime Comunista, que chamou esse muro de proteção contra as agressões do mundo capitalista”, afirma Georg Otte.

De uma hora pra outra, ainda que no começo o muro de Berlim fosse apenas uma cerca, a população da Alemanha Oriental ficou proibida de transitar livremente. Inúmeras são as histórias de famílias desmembradas por causa do muro. A família de Frank Sebastian, morador de Berlim, passou por isso:

Partes do Muro de Berlim ainda estão de pé e viraram museu a céu aberto – Foto: Renato Spagnol

“O muro, para mim, foi sempre uma separação da família, porque a minha mãe e o tio mais novo foram para Berlim [Ocidental] e, com o muro, a separação foi quase completa. No início, não tinha como visitar a família mais, sempre tinha esse sentimento de uma ilha.”

O terror de uma guerra nuclear mantinha a constante tensão no mundo. Estados Unidos e União Soviética viviam uma corrida armamentista e disputavam poder de influência, como na conquista do espaço. O professor de história da USP, Osvaldo Cogiola, comenta que a Guerra Fria também foi a responsável por fazer emergir toda uma mitologia que ainda persiste:

“Personagens que hoje parecem anacrônicos, como agentes secretos e espiões, faziam parte da cultura popular e tinha a ver com essa divisão do mundo entre o bloco capitalista e o bloco socialista, como se o mundo se dividisse em campos ideológicos irreconciliáveis. O imaginário do mundo estava afetado por isso.”
Não foi à toa que o Muro de Berlim acabou se tornando o símbolo mais forte da Guerra Fria e do mundo polarizado. Já feito de concreto, ele chegou a ter 155 quilômetros de extensão. No muro havia redes metálicas eletrificadas, torres de observação e cães ferozes no entorno. Os militares que faziam o policiamento com fuzis tinham uma única ordem em caso de alguém se aproximar do muro: atirar para matar. Segundo o também professor de alemão da UFMG, Élcio Cornelsen, todo esse aparato para evitar fugas era a marca da repressão do regime comunista:

“Isso [a tentativa de fuga] era considerado crime. Quer dizer, as pessoas eram detidas e os familiares ficavam sabendo tempos depois que elas haviam sido detidas. Os prisioneiros, muitas vezes, não tinham noção de onde estavam. O preso podia ser mantido assim por semanas, às vezes por meses.”

Ao todo, cinco mil pessoas tentaram fugir da Alemanha Oriental desde que o muro de Berlim foi erguido em 1961. Três mil delas foram presas, e 130, assassinadas. O motivo para as fugas, mesmo com todos os riscos, é que os problemas do regime socialista estavam afetando aspectos mais básicos da vida dos cidadãos. Entre eles, a família de Charlotte Steinke.

“Não tinha banana, porque era uma coisa exótica e cara de importar. Na verdade, tinha banana sim, mas as pessoas precisavam ficar na fila oito horas para pegar uma banana. E o meu avô ele morava na Alemanha Ocidental e, claro, depois de um tempo quando a gente recebia a visita dele a gente ganhava banana dele. Eu chamava ele de ‘opa banane’ que quer dizer ‘vovô banana’. O próprio jeans, as pessoas eram loucas para ter um jeans bom. Até tentaram produzir jeans na Alemanha Oriental, mas não conseguiram fazer a mesma coisa”, conta Charlotte.

Com a falta de mercadorias e a economia se desgastando, os sinais de colapso da Alemanha Oriental começaram a ficar cada vez mais fortes e inevitáveis.

No próximo capítulo da série “Muro de Berlim: 30 anos de divisões”, você vai saber qual foi o estopim que fez com que a população da Alemanha Oriental fosse para a rua derrubar literalmente Muro de Berlim e qual o impacto desse fato para o mundo.

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