‘Não temos cerveja’: Pandemia faz bebida desaparecer no México

Maior exportador e um dos maiores consumidores da bebida no mundo, o país sofre com a parada de produção das cervejarias durante a crise de saúde

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O fechamento das cervejarias no México, decretado pelo governo diante da crise sanitária da pandemia do novo coronavírus, provocou desabastecimento nas mercearias do país, que são obrigadas a colocar um cartaz de “não temos cerveja”, o que tem feito seu movimento despencar pela metade.

“Não temos cerveja porque não há produção, as fábricas foram fechadas por conta da doença”, explicou à agência EFE Emílio, que é gerente de uma pequena loja de conveniência no populoso distrito de Iztapalapa, na zona leste da Cidade do México.

Antes da pandemia, a distribuidora de cerveja descarregava produtos na loja de Emílio três vezes por semana, mas agora nem passa mais. Nesse lugar, só restam algumas latas das marcas menos vendidas.

A poucas quadras dali, Alejandro tem um depósito de onde distribui bebidas para 150 estabelecimentos na região. Passou de vender 1000 caixas de cerveja por semana para mais um cartaz de “não temos cerveja”.

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“Isso nos prejudica muito, porque o que mais vendemos é cerveja. Como não temos agora, é um problema. Apenas no meu negócio, somos oito famílias que dependem disso”, contou ele, entre montanhas de garrafas vazias.

Um desabastecimento anunciado

A escassez de cerveja no México era previsível desde quando, no dia 31 de março, o governo não incluiu a indústria de bebidas alcoólicas na lista de atividades essenciais que poderiam permanecer em funcionamento durante a criser do coronavírus, que já registrou 17.799 casos e causou 1.732 mortes no país.

“Está acontecendo o que era mais ou menos óbvio. Os estoques que havia no comércio está se esgotando e não há produção nova”, explicou em uma entrevista por telefone Cuauhtémoc Rivera, presidente da Aliança Nacional de Pequenos Comerciantes (ANPEC).

Rivera alertou sobre golpe econônico que isso trará para as mercearias, para as quais a venda de cerveja representa, em média, 40% do faturamento.

Essa escassez também pode ser vista nos grandes supermercados, que começam a encher suas prateleiras de cervejas com outros produtos, com o medo de que não haverá reposição dos produtos pelo menos até junho.

Apesar da escassez de cerveja ainda não ser total, as marcas mais consumidas já estão difíceis de se encontrar e comerciantes denunciam que nas grandes adegas, que ainda têm estoque, o preço para comprar cervejas aumentou em torno de 30%.

“Antes comprava uma caixa por 380 pesos (cerca de R$ 86), agora não consigo por menos de 600 pesos (cerca de R$ 136). Então, já não estou vendendo tanto”, explicou Omar, um rapaz que vende micheladas (cervejas preparadas com sal, limão e uma mistura de pimenta e páprica) em um quiosque.

Quando começou a pandemia, ele comprou 22 caixas de uma vez só, já prevendo o desabastecimento, mas não tem previsão de comprar mais, porque “já não vendo o mesmo que vendia antes”.

O amor do México pela cerveja

A relação dos mexicanos com a cerveja é tão forte que no início da pandemia alguns comércios registraram compras de pânico da bebida, por medo de que ela acabasse.

De fato, alguns distritos da Cidade do México restringiram a venda de álcool nos fins de semana para dissuadir a realização de festas e evitar que a quarentena fosse fragilizada.

No país das micheladas (um coquetel feito de cerveja, suco de limão, molhos variados, temperos, suco de tomate e chili), cerca de metade da população — 65 milhões de mexicanos — bebe cerveja, com um consumo anual de 68 litros por pessoa, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi).

O impacto dessa indústria na economia do país não é nada insignificante, Com a popular marca Corona à frente, a cerveja é o produto agroalimentar mais exportado do México, com exportações que somaram US$ 4,9 bilhões (cerca de R$ 26 bilhões) em 2019, superando o abacate e a tequila.

De fato, o México é o maior exportador mundoal de cerveja, e detém 26,9% do mercado mundial, seguido da Holanda (13.3%) e da Bélgica (12,7%), segundo o Centro de Comércio Internacional das Nações Unidas.

Antes da crise, o governo tinha previsto arrecadar, em 2020, um total de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 81 bilhões) em impostos sobre as bebidas alcoólicas, especialmente a cerveja.

Por tudo isso, os embates sobre como enfrentar as crises sanitária e econômica cresceram inclusive dentro do governo federal.

No início de abril, a Secretaria de Agricultura sugeriu às cervejarias que reativassem sua produção para dar trabalho aos cultivadores de cevada, mas o subsecretário de Saúde Hugo López-Gatell reagiu rapidamente: “A indústria cervejeira não tem autorização para reestabelecer operações”.

Cervejarias buscam alternativas

Diante dessa restrição, as grandes cervejarias já assumiram a impossibilidade de produzir e centram seus esforços em lançar iniciativas para reduzir os efeitos da crise para seus clientes, tanto consumidores quanto lojas e restaurantes.

“Nós estamos cumprindo com tudo o que nos foi pedido e vamos continuar assim. Estamos comprometidos em ajudar o México”, disse à EFE Clarissa Pantoja, diretora da marca Corona, do Grupo Modelo.

Ela explicou que a empresa colocou em funcionasmento uma plataforma digital chamada “Lojinha Próxima”, com 12 mil mercearias registradas para que os cidadãos possam pedir seus produtos pela internet e retirar nelas.

Tanto o Grupo Modelo como a Heineken anunciaram a entrega de máscaras e álcool em gel para os funcionários de saúde que atendem os casos de covid-19.

 

 

FONTE: R7

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