A luta das mulheres africanas contra a discriminação e abusos

As mulheres africanas encontraram nas redes sociais um espaço de denúncia da discriminação que reina nas estruturas convencionais de polícia, tribunais e legislativas.

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Em todo o continente africano estão se desenvolvendo ações nas quais mulheres vítimas de violência sexual utilizam as redes sociais para denunciar seus agressores.

Não se trata de vingança, mas de buscar justiça. Lembremos que as instituições continuam sexistas; que o estigma do estupro é das vítimas e não dos perpetradores; que os últimos gozam de impunidade enquanto as sobreviventes são rejeitadas; e que as autoridades não estão agindo. Mas nas redes sociais… nas redes sociais encontram uma última ronda para disparar, para se reafirmar, para resistir, para exigir reparação e para provocar uma mudança.

Há muito que perderam a confiança nas instituições, as mulheres de vários países africanos encontram cada vez mais nas redes sociais um último refúgio seguro onde podem enfrentar a violência sexual. As estruturas formais, da polícia aos tribunais, e passando pelos parlamentos onde as leis são aprovadas, estão impregnadas de uma discriminação baseada no gênero que está asfixiando os principais ambientes sociais.

Essa é a análise que levou amplos setores da população feminina em muitos países da África Subsaariana a concluir que as autoridades não as protegerão contra a violência sexual. No entanto, não estão dispostos a se resignar à condição de vítimas e, no meio digital, encontraram um espaço para implantar estratégias de apoio mútuo, de rompimento com tabus e de exigir justiça.

Não estamos falando de um episódio isolado. Os gatilhos foram variados. As faíscas começam a voar da forma mais insuspeitada. Mas o fato é que, nos últimos meses (em alguns casos, anos), surgiram ações nas quais as redes se tornaram um espaço de denúncia pública de agressores sexuais em diversos países africanos.

Cada ação apresenta uma dinâmica própria e todas se desenvolvem de forma autônoma, mas o acúmulo evidencia um fenômeno mais difundido, em que muitas dessas comunidades estão tentando quebrar as barreiras sociais para denunciar, acabando com o estigma de quem sofreu essa violência e forçando um debate e uma reflexão que desencadeia uma mudança de mentalidade.

Tendo dissipado o mito de que um movimento como #MeToo era realmente global, e além do olhar para o umbigo que é representado por pensar que o que acontece no Norte ocupa o centro, o ritmo dessas mobilizações mostra que cada comunidade tem suas condições particulares e que as demandas de transformação devem responder a essas condições.

Por Carlos Bajo / CCCBLAB