Diante dos impactos econômicos causados pela COVID-19, o Governo brasileiro se viu obrigado a encontrar novos caminhos para retomar o desenvolvimento da economia do país. Principalmente depois da queda histórica de 9,7% do PIB, o Produto Interno Bruto, entre abril e junho de 2020. O Ministério da Economia, liderado por Paulo Guedes, tem sofrido reveses e demissões, e recentemente houve boatos de que o próprio Ministro entregaria o cargo. A pressão do Presidente Jair Bolsonaro sobre o líder da pasta só cresce, e Guedes parece não estar encontrando caminhos promissores para retirar o país do abismo socioeconômico.
Nos últimos meses, a Presidência da República lançou um pacote de 22 medidas que visam a recuperação econômica, o que inclui a atração de investimentos estrangeiros e a criação de novos postos de trabalho. A captação de novos investidores passa por investir em mercados, nichos e segmentos que ainda não estão saturados no Brasil. É o caso do turismo, que acaba por envolver também invariavelmente o debate da legalização dos cassinos no país.
Em 2020 Bolsonaro começou a preparar a liberação dos cassinos junto ao Ministério do Turismo. A intenção do Governo é até 2023 ter isso posto em prática. Contudo, como aponta o Ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, isso não significa que os jogos de cassino serão legalizados. Essa informação muda bastante coisa e impacta negativamente a bancada política que busca a legalização completa dos jogos de azar, incluindo também a dos cassinos online.
Liberação sem legalização pode não trazer benefícios reais
Na prática como vai funcionar a liberação dos jogos de azar? Em primeiro lugar a atividade só poderá ser explorada em locais específicos, os chamados resorts de luxo ou clusters. São empreendimentos no estilo dos hotéis de Las Vegas, que compreendem amplos espaços de entretenimento, com espetáculos, salas de conferência, shoppings e, claro, cassinos. Os cassinos, no entanto, corresponderão a apenas 3% a 5% das atividades desses estabelecimentos, na intenção de atrair apenas visitantes com alto poderio econômico.
A intenção do Ministro Marcelo Álvaro é instalar os cassinos em regiões com baixo IDH, de forma a impedir naturalmente que pessoas com baixa renda tentem ingressar nos cassinos. O Governo Bolsonaro não quer jogos de azar legais e acessíveis ao povo brasileiro. Por essa razão, os cassinos integrados aos resorts seriam vendidos em pacotes de agências de viagem, o que garantiria uma seletividade nos apostadores.
Porém existe um problema em liberar e em não legalizar. Em especial se o modelo a ser empregado for o de cassinos ocuparem apenas 3% a 5% de resorts de luxo, em regiões com IDH baixo. Falta uma análise profunda por parte do Governo e por parte do Ministério do Turismo em relação ao potencial turístico brasileiro. Sabe-se que os principais destinos dos turistas estrangeiros e mesmo dos próprios brasileiros são cidades localizadas na costa do país. Essas são as regiões turísticas com maior IDH, e instalar cassinos em regiões em que não há turismo soa como um “tiro no pé”. Seria como ir na contramão do que praticam países como Singapura e Portugal, cujos principais cassinos ficam em zonas portuárias e costeiras.
Outro ponto é que o Brasil tem potencial para instalar mais de 200 estabelecimentos de cassinos no estilo de Las Vegas. Inclusive há empresários do setor, sendo muitos estadunidenses, que fazem lobby pela legalização completa dos jogos de azar, prometendo investir bilhões de Dólares no país. Porém a construção de complexos de luxo gigantes como os de Las Vegas parece não estar nos planos do Governo. Um desperdício de potencial econômico, que poderia criar milhares de empregos diretos e indiretos no país.
O que ainda não está claro é qual caminho o Governo Bolsonaro quer seguir: o do crescimento econômico ou o da reafirmação da tradição, da moral e dos costumes familiares, ligados à bancada evangélica do Senado e do Parlamento. Parece bastante evidente, no entanto, que ambos caminhos não podem estar em comunhão. E, a julgar pelo panorama dos primeiros anos do Presidente Bolsonaro no poder, o Brasil seguirá em déficit na economia.










